A magia deixou de ser raio
e virou clima.
E o clima,
com o tempo,
virou casa.
Foi quando apareceu a pergunta
que nenhum rito me ensinou a responder:
como sustentar uma vida
sem transformá-la em outra coisa
que precisa ser controlada?
Porque é isso que minha mão faz
quando ama.
Fecha.
Tenta proteger.
Tenta preservar a forma.
Mas o que nasceu do outro lado do portal
não respira dentro de uma mão fechada.
Minhas mãos sabem antes de mim.
Cuido do meu altar.
Cuido das minhas plantas.
Tiro a folha seca,
troco a água,
acendo a vela,
limpo a cera.
Gestos pequenos.
Banais.
Quase invisíveis.
Mas dá para cuidar de um altar
de dois jeitos:
como devoção
ou como vigilância.
O mesmo pano.
A mesma vela.
O mesmo gesto.
A diferença acontece por dentro.
Um cuida do vivo.
O outro confere
se a magia ainda está funcionando.
Levei tempo para sentir a diferença.
A devoção relaxa.
A vigilância cobra.
O controle olha para algo amado
e pergunta:
como faço para que isso
nunca deixe de ser assim?
A sustentação pergunta:
o que isso precisa agora
para continuar vivo?
Descobri essa diferença sangrando,
porque eu queria preservar a forma.
Queria que aquilo que eu amava
continuasse cabendo no contorno
em que aprendi a amá-lo.
E havia uma condição escondida
embaixo de cada gesto:
eu cuidei, então floresça.
eu permaneci, então apareça.
eu construí, então não mude.
Sustentar não pede menos devoção.
Pede devoção sem condição escondida.
O que nasceu de mim
não veio para me obedecer.
Veio para viver.
Também achei que sustentar
fosse fazer sempre,
do mesmo jeito,
com a mesma intensidade.
Mas vida tem ritmo.
E ritmo inclui pausa.
Dias de regar.
Dias de podar.
Dias de não tocar.
Dias em que a terra
parece não devolver nada.
A pausa mais fértil que já fiz
durou trinta e oito dias.
Parei.
Arranquei estruturas inteiras
que havia plantado
com pressa e medo de parar.
Fiquei um tempo
com as mãos vazias
e sujas de terra.
Depois replantei.
Com calma.
Com intenção.
E o que nasceu dessa segunda plantação
está vivo até hoje.
Arrancar para conferir se cresceu
é ansiedade.
Arrancar para replantar
é escuta.
Ainda pego minha mão
a caminho da raiz,
indo conferir.
Escrevo isto de dentro do exercício.
Não do outro lado dele.
Eu conhecia mil formas
de voltar pela metade.
Voltar trabalhando.
Voltar cuidando.
Voltar útil —
presente de corpo,
ocupada de mãos,
com a parte que sente
esperando do lado de fora da porta.
Essa volta eu fazia todos os dias.
E ela não sustentava nada.
A volta mais difícil da minha vida
não teve rito.
Foi voltar inteira
para aquilo que eu havia construído:
com os cacos,
as perguntas
e a melancolia —
sem usar o trabalho
para justificar minha presença.
Posso chorar.
Posso ficar com raiva.
Posso arrancar do vaso
o que plantei errado
e suportar a terra aberta
por algum tempo.
Mas eu volto.
À prática.
Ao altar.
À casa.
Por teimosia
ou porque amo demais.
Já não sei a diferença.
E desconfio que sustentação
seja exatamente isso:
o ponto em que teimosia e amor
fazem o mesmo gesto.
Voltar.
E, quando voltei sem armadura,
a casa respondeu.
No começo,
eu sustentei o que nasceu.
Depois —
e isso ninguém me contou —
aquilo começou a me sustentar.
A prática virou chão.
A casa virou abrigo.
O símbolo virou linguagem
nos dias em que perdi as palavras.
O vaso que construí
para conter o que recebi
passou a me conter
nos dias em que transbordo.
Já não é:
eu preciso manter tudo vivo.
É:
aquilo que cultivo
também pode me manter viva.
Há dias em que alimento a chama.
Há dias em que a chama me aquece.
E ser cuidada de volta
por aquilo que um dia
dependeu do meu cuidado —
isso não tem preço.
Tem lar.
Eu já atravessei o portal.
Habitar foi o trabalho.
Sustentar é a arte.
Reacender a vela
sem tratar cada noite
como fim do mundo.
Voltar
sem exigir que a casa
esteja igual à última vez.
Cuidar do que está vivo
sem pedir que permaneça imóvel.
A magia não acabou.
Ela virou casa.