Um deck de madeira à noite, com a porta envidraçada aberta para um cômodo aceso à vela; no chão de tábuas, uma manta, uma lanterna com vela e um fio dourado atravessando o assoalho; ao redor, vasos com plantas vivas e, ao fundo, o mar sob o crepúsculo.
Nota V  ·  Limiar

Sustentar a vida que nasceu

A devoção que não vigia

A magia deixou de ser raio
e virou clima.

E o clima,
com o tempo,
virou casa.

Foi quando apareceu a pergunta
que nenhum rito me ensinou a responder:

como sustentar uma vida
sem transformá-la em outra coisa
que precisa ser controlada?

Porque é isso que minha mão faz
quando ama.

Fecha.

Tenta proteger.
Tenta preservar a forma.

Mas o que nasceu do outro lado do portal
não respira dentro de uma mão fechada.

Minhas mãos sabem antes de mim.

Cuido do meu altar.
Cuido das minhas plantas.

Tiro a folha seca,
troco a água,
acendo a vela,
limpo a cera.

Gestos pequenos.
Banais.
Quase invisíveis.

Mas dá para cuidar de um altar
de dois jeitos:

como devoção
ou como vigilância.

O mesmo pano.
A mesma vela.
O mesmo gesto.

A diferença acontece por dentro.

Um cuida do vivo.

O outro confere
se a magia ainda está funcionando.

Levei tempo para sentir a diferença.

A devoção relaxa.

A vigilância cobra.

O controle olha para algo amado
e pergunta:

como faço para que isso
nunca deixe de ser assim?

A sustentação pergunta:

o que isso precisa agora
para continuar vivo?

Descobri essa diferença sangrando,
porque eu queria preservar a forma.

Queria que aquilo que eu amava
continuasse cabendo no contorno
em que aprendi a amá-lo.

E havia uma condição escondida
embaixo de cada gesto:

eu cuidei, então floresça.
eu permaneci, então apareça.
eu construí, então não mude.

Sustentar não pede menos devoção.

Pede devoção sem condição escondida.

O que nasceu de mim
não veio para me obedecer.

Veio para viver.

Também achei que sustentar
fosse fazer sempre,
do mesmo jeito,
com a mesma intensidade.

Mas vida tem ritmo.

E ritmo inclui pausa.

Dias de regar.
Dias de podar.
Dias de não tocar.
Dias em que a terra
parece não devolver nada.

A pausa mais fértil que já fiz
durou trinta e oito dias.

Parei.

Arranquei estruturas inteiras
que havia plantado
com pressa e medo de parar.

Fiquei um tempo
com as mãos vazias
e sujas de terra.

Depois replantei.

Com calma.
Com intenção.

E o que nasceu dessa segunda plantação
está vivo até hoje.

Arrancar para conferir se cresceu
é ansiedade.

Arrancar para replantar
é escuta.

Ainda pego minha mão
a caminho da raiz,
indo conferir.

Escrevo isto de dentro do exercício.

Não do outro lado dele.

Eu conhecia mil formas
de voltar pela metade.

Voltar trabalhando.
Voltar cuidando.
Voltar útil —
presente de corpo,
ocupada de mãos,
com a parte que sente
esperando do lado de fora da porta.

Essa volta eu fazia todos os dias.

E ela não sustentava nada.

A volta mais difícil da minha vida
não teve rito.

Foi voltar inteira
para aquilo que eu havia construído:

com os cacos,
as perguntas
e a melancolia —

sem usar o trabalho
para justificar minha presença.

Posso chorar.
Posso ficar com raiva.
Posso arrancar do vaso
o que plantei errado
e suportar a terra aberta
por algum tempo.

Mas eu volto.

À prática.
Ao altar.
À casa.

Por teimosia
ou porque amo demais.

Já não sei a diferença.

E desconfio que sustentação
seja exatamente isso:

o ponto em que teimosia e amor
fazem o mesmo gesto.

Voltar.

E, quando voltei sem armadura,
a casa respondeu.

No começo,
eu sustentei o que nasceu.

Depois —
e isso ninguém me contou —
aquilo começou a me sustentar.

A prática virou chão.
A casa virou abrigo.
O símbolo virou linguagem
nos dias em que perdi as palavras.

O vaso que construí
para conter o que recebi
passou a me conter
nos dias em que transbordo.

Já não é:

eu preciso manter tudo vivo.

É:

aquilo que cultivo
também pode me manter viva.

Há dias em que alimento a chama.

Há dias em que a chama me aquece.

E ser cuidada de volta
por aquilo que um dia
dependeu do meu cuidado —

isso não tem preço.

Tem lar.

Eu já atravessei o portal.

Habitar foi o trabalho.

Sustentar é a arte.

Reacender a vela
sem tratar cada noite
como fim do mundo.

Voltar
sem exigir que a casa
esteja igual à última vez.

Cuidar do que está vivo
sem pedir que permaneça imóvel.

A magia não acabou.

Ela virou casa.

Linha do Limiar
A porta entreaberta

Outras notas deixadas pelo caminho

Nota IV · Revelação

A fenda

Nota I · Travessia

A realidade depois do portal

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