Imagem de A fenda: uma câmara de pedra em penumbra; por uma abertura estreita no alto, uma lâmina de luz dourada desce e pousa sobre uma prateleira de rocha nua.
Nota IV  ·  Revelação

A fenda

A luz que muda o quarto

Ninguém começa amando frestas.

Você queria o portal.

A porta com nome, moldura e hora de abrir.

Queria o céu inteiro rasgando a sala.

Diante dele, a fresta parecia pouco.

Pouco demais para quem já viu o céu abrir.

Não era ingratidão.

Você sabia a diferença entre o fogo e um discurso sobre as virtudes da brasa.

A brasa é preciosa quando ainda guarda o fogo e pode incendiá-lo outra vez.

Não quando é oferecida para ensinar alguém a desejar menos.

A fenda não prometeu o céu.

Não disse que ficaria. Não pediu que você a chamasse de portal.

Era apenas uma falha estreita na certeza da parede.

E, por um instante, alguma coisa atravessou.

Não era tudo.

Mas também não era nada.

A parede não tinha desaparecido.

Só já não podia fingir que era inteira.

A fenda não devolveu o céu.

Devolveu uma lâmina de luz.

Não iluminou o quarto inteiro.

Tocou um pedaço do chão, revelou a poeira suspensa, deu contorno ao que estava perto.

E bastou para que seus olhos começassem a se ajustar.

Não é porque foi breve que a luz valeu menos.

Nem porque foi estreita que se tornou mais pura.

Foi luz enquanto esteve ali.

E o quarto, depois de tocado, já não era exatamente o mesmo.

Primeiro, você apenas olhou.

Depois, alguma coisa em você respondeu.

Uma frase voltou. Uma imagem pediu corpo. As mãos lembraram o caminho.

Você não recebeu a floresta.

Recebeu luz suficiente para reconhecer a semente.

A fenda não fez de você autora.

Revelou que suas mãos ainda sabiam criar.

E o fluxo que parecia perdido começou outra vez a se mover.

Foi então que outra coisa se tornou visível.

A porta nunca foi a única passagem.

Você não criou a luz.

Mas a luz também não criou sozinha o que nasceu depois dela.

Algo chegou.

Você recebeu.

E, entre o que tocou a pedra e o que a pedra devolveu, o campo voltou a circular.

Talvez a fonte não seja uma origem solitária.

Talvez seja a parte de você que, quando tocada, responde.

Soberania não é possuir a luz.

É não entregar a nenhuma porta o monopólio da passagem.

Perder o portal ensina a vigiar a parede.

Você procura a abertura. Mede o que entra. Compara a luz com o céu.

Pergunta quando volta. Quanto dura. Se será suficiente.

Mas a fenda não pede sentinela.

Pede superfície.

A sentinela observa a parede.

A superfície recebe a luz.

Muda de temperatura. Reflete. Aquece.

E responde.

Às vezes você ainda volta para o posto de vigia.

Então se lembra:

não é preciso guardar a abertura para ter sido tocada por ela.

A pedra não carrega prova.

Nenhum sinal depositado sobre ela. Nenhuma promessa do próximo clarão.

Está nua.

Nua não porque esteja vazia.

Porque está disponível.

Quando a luz chega, a pedra não tenta prendê-la.

Deixa que atravesse. Deixa que aqueça. Deixa que revele.

E, quando a luz se move, não transforma a noite em abandono.

A fenda não era o portal.

Nunca disse que era.

Foi luz suficiente para mudar o quarto.

E, dentro do quarto, você voltou a se mover.

Linha da Revelação
A porta entreaberta

Outras notas deixadas pelo caminho

Nota III · Realinhamento

O tempo do campo

Nota V · Limiar

Sustentar a vida que nasceu

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