Ninguém começa amando frestas.
Você queria o portal.
A porta com nome, moldura e hora de abrir.
Queria o céu inteiro rasgando a sala.
Diante dele, a fresta parecia pouco.
Pouco demais para quem já viu o céu abrir.
Não era ingratidão.
Você sabia a diferença entre o fogo e um discurso sobre as virtudes da brasa.
A brasa é preciosa quando ainda guarda o fogo e pode incendiá-lo outra vez.
Não quando é oferecida para ensinar alguém a desejar menos.
A fenda não prometeu o céu.
Não disse que ficaria. Não pediu que você a chamasse de portal.
Era apenas uma falha estreita na certeza da parede.
E, por um instante, alguma coisa atravessou.
Não era tudo.
Mas também não era nada.
A parede não tinha desaparecido.
Só já não podia fingir que era inteira.
A fenda não devolveu o céu.
Devolveu uma lâmina de luz.
Não iluminou o quarto inteiro.
Tocou um pedaço do chão, revelou a poeira suspensa, deu contorno ao que estava perto.
E bastou para que seus olhos começassem a se ajustar.
Não é porque foi breve que a luz valeu menos.
Nem porque foi estreita que se tornou mais pura.
Foi luz enquanto esteve ali.
E o quarto, depois de tocado, já não era exatamente o mesmo.
Primeiro, você apenas olhou.
Depois, alguma coisa em você respondeu.
Uma frase voltou. Uma imagem pediu corpo. As mãos lembraram o caminho.
Você não recebeu a floresta.
Recebeu luz suficiente para reconhecer a semente.
A fenda não fez de você autora.
Revelou que suas mãos ainda sabiam criar.
E o fluxo que parecia perdido começou outra vez a se mover.
Foi então que outra coisa se tornou visível.
A porta nunca foi a única passagem.
Você não criou a luz.
Mas a luz também não criou sozinha o que nasceu depois dela.
Algo chegou.
Você recebeu.
E, entre o que tocou a pedra e o que a pedra devolveu, o campo voltou a circular.
Talvez a fonte não seja uma origem solitária.
Talvez seja a parte de você que, quando tocada, responde.
Soberania não é possuir a luz.
É não entregar a nenhuma porta o monopólio da passagem.
Perder o portal ensina a vigiar a parede.
Você procura a abertura. Mede o que entra. Compara a luz com o céu.
Pergunta quando volta. Quanto dura. Se será suficiente.
Mas a fenda não pede sentinela.
Pede superfície.
A sentinela observa a parede.
A superfície recebe a luz.
Muda de temperatura. Reflete. Aquece.
E responde.
Às vezes você ainda volta para o posto de vigia.
Então se lembra:
não é preciso guardar a abertura para ter sido tocada por ela.
A pedra não carrega prova.
Nenhum sinal depositado sobre ela. Nenhuma promessa do próximo clarão.
Está nua.
Nua não porque esteja vazia.
Porque está disponível.
Quando a luz chega, a pedra não tenta prendê-la.
Deixa que atravesse. Deixa que aqueça. Deixa que revele.
E, quando a luz se move, não transforma a noite em abandono.
A fenda não era o portal.
Nunca disse que era.
Foi luz suficiente para mudar o quarto.
E, dentro do quarto, você voltou a se mover.