Uma semente recém-brotada rompe a terra escura; ao fundo, uma lua turquesa atravessa a névoa da noite.
Nota III  ·  Realinhamento

O tempo do campo

A semente não precisa de prova

Talvez você já tenha visto alguém assim.

Magnética, solta, inteira no lugar onde está —
como se o tempo dela não obedecesse
ao mesmo relógio que o seu.

Não parecia ter menos mundo para sustentar.

O mundo apenas não estava inteiro
sobre os ombros dela.

Havia forma, mas não armadura.

Algo nela se ajustava ao movimento da vida
sem tentar contê-lo,
como um tecido que acompanha o vento
sem perder o próprio contorno.

Ela não corria na frente do corpo.

Não se impunha sobre o dia.
Movia-se com ele.

Você olha
e alguma coisa aperta.

Não porque deseja a vida dela.

Porque reconhece, por contraste,
o peso da sua.

Ela habitava o próprio tempo.

O relógio ainda existia.

Só não vivia dentro dela.

Na parede, o relógio marca a hora,
organiza o encontro,
lembra quando é tempo de ir.

Mas, para quem aprendeu cedo
que depender machuca,
o relógio atravessa a parede
e entra no corpo.

Prever.
Planejar.
Garantir.

Chegar antes da vida
para que ela não te encontre desprevenida.

Quem precisou vigiar o presente
também tenta alcançar o amanhã
antes que alguma coisa mude.

É a esperança de que, sabendo o que vem,
nenhuma mudança consiga
arrancar o chão.

Então você planta alguma coisa.

Cobre com terra.
Tenta esperar.

Mas o silêncio da terra
parece longo demais.

Você volta.
Confere.
Cutuca.

Desenterra a semente
para ver se a raiz vem.

Mas ninguém escava
por dúvida da terra.

Escava-se por saudade
com as mãos.

As mãos querem aproximar
aquilo que só o tempo pode fazer.

Só que a pá não aproxima.

Cansa.

E a raiz, exposta ao ar mais uma vez,
precisa recomeçar do susto.

Porque debaixo de toda pressa
mora uma frase que raramente
é dita em voz alta:

se eu parar,
vai estar vazio demais para aguentar.

A pressa não quer chegar.

Quer não sentir.

Por isso parar parece tão perigoso.

Mas, quando você finalmente para,
o vazio não avança para te engolir.

Ele ganha margem.

O ruído baixa.
O corpo volta a ocupar o próprio lugar.

E aquilo que parecia ausência
começa, devagar,
a revelar espaço.

Existe uma estação
de que quase ninguém fala.

Depois das grandes transformações,
vem um tempo dormente.

Sem sinais.
Sem êxtase.
Sem prova.

A melancolia não é falha da magia.

É estação.

Há um tempo em que a vida se recolhe
para trabalhar abaixo da superfície.

Vista de cima,
a terra parece imóvel.

Por baixo,
a vida trabalha sem testemunha.

O vivido não se desvive.

O que se tornou raiz
não precisa florescer todos os dias
para continuar vivo.

Então um dia — geralmente um dia comum —
você esquece de vigiar.

Não decide confiar.

Apenas deixa de chegar antes.

E percebe.

Escolhe o silêncio
onde antes responderia por reflexo.

Muda o gesto
porque o corpo pediu outra coisa.

Escreve não porque chegou a hora,
mas porque algo atravessou você
e precisa nascer.

O tempo do campo não é passividade.

É ação depois de escuta.

Não é prever e controlar.

É perceber e responder.

Perceber pede presença.
Responder pede confiança.

E o que chega quando você não está testando
raramente cabe no que teria planejado.

Viver nesse tempo exige romper.

Mas não com tudo.

Apenas com o que já não sustenta a alma.

O relógio continua na parede.

Só deixa de marcar
o tempo dentro do corpo.

A agenda continua sobre a mesa.

Mas guarda espaço
para aquilo que não avisa
quando vai chegar.

O tempo do campo não pede
que você abandone a forma.

Pede que a forma continue viva —
capaz de respirar,
de mudar,
de acompanhar a terra
sem se impor sobre ela.

Esse tempo não tem pressa.

Tem ritmo.

Não exige que a vida se revele
antes de estar pronta.

Prepara o solo.
Recebe a semente.
Permanece perto o bastante
para responder à chuva.

E confia.

Nem toda semente precisa ser escavada
para provar que está viva.

A terra sabe o que faz
com o que você confiou a ela.

O campo também.

Linha do Realinhamento
A porta entreaberta

Outras notas deixadas pelo caminho

Nota II · Direção

Entrega não é desaparecer

Nota IV · Revelação

A fenda

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