Um cômodo em penumbra com uma xícara de café fumegando e uma vela acesa; pelo arco aberto, uma mata banhada de luz dourada respira do outro lado.
Nota I  ·  Travessia

A realidade depois do portal

A manhã seguinte da travessia

Tem fases em que a travessia não pede mais ruptura.

Pede sustentação.

Não basta atravessar o portal.
É preciso aprender a viver do outro lado.

A travessia costuma ser lembrada pelo instante em que algo rompe.
O limiar tem beleza cinematográfica.
A sombra tem drama.
O renascimento tem brilho.

Mas quase ninguém fala da manhã seguinte.

A manhã seguinte não avisa.
Ela só amanhece.

E você levanta, porque tem que levantar.
Responde as mensagens.
Paga o boleto.
Funciona.

Por fora, uma pessoa competente fazendo café.
Por dentro, alguém parado no meio de um mapa
que queimou durante a noite.

Depois do portal, ainda existe corpo.
Ainda existe agenda, casa, dinheiro, fome, sono.

E ainda existe você — tendo que dar conta de tudo isso
enquanto carrega por dentro
algo que ainda não aprendeu a ter nome.

Olha a cena:

o café está quente.
O escuro ainda é escuro.
E, do outro lado do arco,
a vida continua respirando.

Tudo ao mesmo tempo.

Sem que a luz desfaça o escuro.
Sem que o escuro desminta a luz.

Funcional e sem direção.
Cansada e recém-nascida.
Comum e atravessada.

Não é “ou”.

É “e”.

O pós-rito da alma não parece mágico.

Parece um corpo voltando para a vida
depois de ter visto algo grande demais —
e descobrindo que já não cabe inteiro
no lugar de antes.

Então você vai tentar reabrir o portal.

Todo mundo tenta.

Volta ao lugar do rito.
Repete o gesto.
Monta altares cada vez mais elaborados
para um raio que não responde.

E se frustra.

Sente raiva — do campo, do silêncio, de si.

Pergunta o que fez de errado,
como se o portal fosse prêmio
de bom comportamento.

Ninguém para porque virou sábio.

Para porque cansa.

E quando as mãos finalmente param,
tudo o que a pressa atropelou
chega de uma vez.

Deixa chegar.

É a enchente limpando o leito.

Depois, vem silêncio.

Mas já não o mesmo silêncio.

Este parece conter alguma coisa
que ainda não se oferece como sentido.

E aqui está o que torna essa fase
tão desorientadora:

pela primeira vez,
não há mais inimigo claro.

Não há mais “a versão antiga”
contra a qual lutar.

Não há mais incêndio suficiente
para justificar a intensidade.

Há vida.

Não a vida depois do fim.

A vida depois do começo.

Dias sem ruptura suficiente para justificá-los.

Um corpo, um mundo, um cotidiano
pedindo para ser vividos
por alguém que já não cabe
na pessoa que atravessou.

A magia deixa de ser raio
e vira clima.

Não porque diminuiu.

Porque saiu do instante
e se espalhou.

Clima não pede que você olhe para ele.

Envolve.

Mistura-se ao ar,
ao corpo,
à forma como o dia toca você.

E talvez seja por isso
que demore tanto para ser reconhecido:

quem passou tempo demais
esperando o clarão
ainda precisa aprender
a sentir temperatura.

Se você está nessa manhã —
funcional por fora,
sem mapa por dentro —

não é fracasso.

Talvez seja apenas o intervalo
entre ter atravessado
e reconhecer a forma da vida
do outro lado.

Estas notas nascem desse território.

Não são mapas.

São bilhetes deixados pelo caminho
para quem também encontrou
corpo, silêncio, espera e ambivalência
depois do arco.

Atravessar o portal,
você já atravessou.

Agora começa
a parte que quase ninguém conta.

Linha da Travessia
A porta entreaberta

Outras notas deixadas pelo caminho

Nota II · Direção

Entrega não é desaparecer

Nota III · Realinhamento

O tempo do campo

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